Segunda reportagem caminhos sem volta: Sedução do tráfico redenção e as marcas do passado

Na segunda reportagem caminhos de volta, sobre pessoas que tentam abandonar o crime. O jornal o povo fala sobre a sedução do trafico e as marcas do passado. Confira abaixo.

Um convite inesperado, ainda em 2013, seduziu o jovem de 16 anos, morador de Rio Branco (AC): transportar drogas em troca de dinheiro. A missão, aparentemente simples, levou a um caminho quase sem volta. É que havia uma condição para se encarregar do serviço pelo qual, a depender da quantidade traficada, R$ 5 mil, em média. “Só podia aceitar quem entrasse para a facção”, conta.

Em entrevista ao O POVO, hoje aos 21 anos, o caçula de cinco irmãos, que vive em Cruzeiro do Sul (AC), detalha o que passou nos cinco anos em que viveu sob a hierarquia de uma organização criminosa. “Entrei para ganhar dinheiro, dinheiro fácil. Foi através de amizades que já eram da facção. Eu gostava de vender drogas”, disse, ao negar o cometimento de crimes como roubo ou homicídio.

 

Ainda na adolescência, com o 2º ano do Ensino Médio concluído, o jovem – que terá a identidade preservada – foi apreendido por ato infracional análogo ao tráfico. Cumpriu dois anos de medida socioeducativa, saiu da internação já adulto e foi novamente preso. “Fui botar uma droga perto da fronteira, oito quilos de maconha, de ônibus, e caí para a Polícia Civil”, relembra. Condenado a cinco anos, em regime fechado, cumpriu dois.

 

No início deste ano, passou a responder em liberdade – ou não. “Minha rotina era a mesma de estar em uma prisão, só que aqui fora. Saí de uma prisão e entrei em outra. Vivia com insegurança, medo misturado com pavor. A diferença é que eu podia ver a luz do sol e as pessoas ao meu redor. Nem meus familiares podiam ir onde eu estava, nem eu até eles”, ressente.

 

Isolados, pais e filho moravam em bairros dominados por facções rivais e, portanto, eram proibidos de se ver. “Se eu fosse lá, eles podiam me matar. E se eles viessem onde eu estava, podiam morrer. Pensariam que eles estavam levando informações para mim. Quando pegam, eles amarram, matam, fazem vídeo, isso tudo que a gente vê nos noticiários frequentemente”, descreve. Sozinho, continuou traficando durante alguns meses.

 

Até que, meio à guerra de facções, o pressentimento se concretizou. Surpreendido por dois rivais, o jovem foi alvo de um atentado em uma das ruas do bairro onde vivia. Cinco disparos o atingiram na nuca, abdômen, duas pernas e uma das mãos. Consciente, e ciente do risco de morte que corria, ainda na sala de cirurgia, fez uma promessa. “Eu disse a Deus que, se ele me livrasse, sairia dessa vida”, se emociona.

 

Passado o procedimento, foram dois meses de internação no hospital e outros três de recuperação em casa. Hoje, ainda com uma bala alojada na cabeça, o jovem vive sem sequelas. “Só tenho as marcas. Não retirei a bala porque corria o risco de ficar paraplégico. Mas ela não está ofendendo em nada. Foi um milagre. Ele me livrou e hoje eu estou aqui. Cumpri o que prometi e agora tento resgatar almas para Deus”.

 

Atualmente, o ex-faccionado vive em uma casa de apoio cedida pela igreja da qual é membro. Mora com a companheira, uma filha de nove meses e um casal de enteados, de 14 e 16 anos. Sem emprego fixo, faz bicos de pintor e ajudante de pedreiro, mas não reclama.

 

“Minha vida está uma bênção. Graças a Deus, posso dormir tranquilo, acordar. Colocar a cabeça no travesseiro e tirar uma noite de sono abençoada, algo que antes eu não podia. Antes eu dormia e era arriscado acordar morto ou então nem acordar. Hoje eu posso trabalhar, andar na rua tranquilamente, ir aos outros bairros que eu não podia. Tudo mudou completamente para melhor”, diz, aliviado.

 

Livre, o jovem defende apoio à causa do resgate de faccionados. “Seria bom que os governos voltassem os olhos para essas pessoas. Um projeto, uma casa de reabilitação. Muitos têm vontade de sair, mas não têm ajuda. Estão desligados da família, vivem no mundo por contra própria e a sociedade discrimina. Às vezes, eles têm filho para sustentar. E, querendo ou não, na facção, eles são chamados de família. Um ajuda ao outro. E muitos se obrigam a entrar para não passar necessidade”, desabafa.

THIAGO PAIVA

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