Jornal o povo inicia reportagens sobre o drama de quem quer deixar o mundo do crime

 

O Jornal O Povo iniciou hoje uma série de matérias sobre o drama de pessoas que querem deixar o mundo do crime. A matéria de hoje é de Thiago Paiva.

“Estou deixando a caminhada. Quero cuidar da minha família e ficar em paz com Jesus”, justifica um jovem, em vídeo compartilhado nas redes sociais. Ao lado do pastor Francisco Ferreira Barbosa, 41, o ex-faccionado informa à cúpula da organização criminosa a qual pertencia, no município de Cruzeiro do Sul, no Acre, que está de saída. Escolheu passar por uma das raras portas de remição permitidas pelo “crime”. Recorreu à fé.

 

Em um cenário de espraiamento das facções criminosas por todas as regiões do País, são cada vez mais largos, amplos e atrativos os caminhos que levam os jovens brasileiros até essas organizações. Atraentes, sobretudo àqueles que vivem em situação de vulnerabilidade social, esses grupos criminosos são vistos como atalhos para a ascensão econômica e o status. Sedução diante da realidade vivida nas comunidades carentes.

 

Assim, batizando novos membros nas ruas, presídios e centros socioeducativos, as facções encorpam suas fileiras. Enquanto isso, as portas de saída são cada vez mais estreitas. Pior, o acesso a esses escapes, quando existem, depende de critérios estabelecidos pelas próprias facções. Para que o desligamento seja permitido, são considerados, por exemplo, o nível de ocupação no escalão da organização criminosa, o grau de envolvimento com o grupo e o objetivo da quebra do vínculo.

 

A favor da disposição de sair, pesam o arrependimento, o apelo familiar e o chamado religioso. Tudo é levado em conta durante um julgamento rigoroso feito pelas cúpulas. “Existem alguns casos em que a saída não é permitida. Depende da situação. Se for para mudar de vida, eles liberam. Mas se for para ‘rasgar a camisa’, sair de uma facção e ir para outra, jamais”, explica o pastor Barbosa, que há cinco anos se dedica ao resgate de jovens.

 

Há ainda situações específicas. “Nunca derramei sangue de ninguém da família rival”, enfatiza, no vídeo, o jovem egresso, em recado aos inimigos com quem antes disputou territórios para o tráfico. É que a permissão dos companheiros de crime não exime de culpa, nem garante a compreensão dos membros de grupos rivais. “Que Deus toque no coração de vocês, como tocou no meu”, apela.

 

O processo de saída carece ainda de acompanhamento permanente. “Depois disso, fico monitorando e conduzindo eles. Vou conversando, trago para dentro da minha casa, levo para a igreja. Eles ficam sendo monitorados por mim e pelo crime. Eles (faccionados) torcem para que eles (egressos) permaneçam na igreja, torcem pela reabilitação. Existe um temor forte a Deus entre eles, apesar de ser da forma deles”, descreve o religioso. “Só dá certo se for assim”, conclui.

 

Diante do drama nacional e da necessidade de uma intervenção que possibilite a saída de faccionados das organizações criminosas, como forma de diminuir a abrangência e a capilaridade desses grupos, O POVO inicia hoje uma série de reportagens na qual discute o papel do Estado e da sociedade na construção de métodos para atender àqueles que se arrependeram de decisões passadas, pagaram pelos crimes que cometeram e agora buscam vida nova.

 

LEIA AMANHÃ

Na segunda reportagem, a territorialização dos presídios e o depoimento de um ex-faccionado

 

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