quinta-feira, janeiro 24

Doença de chagas mata um por semana no Ceará

A dúvida de Henrique, de oito anos, vem da surpresa no dia em que um mal rompeu o silêncio. O Ceará tem mais de 20 mil pessoas diagnosticadas com a doença de Chagas e outras 260 mil que não sabem tê-la. A maioria morrerá sem saber. O tempo anda devagar enquanto a doença de barbeiro corre, sempre associada à pobreza e ao passado. Tão presente, nem parece que fará 110 anos de sua descoberta em 2019, pois o tratamento pouco evoluiu.

Não importa qual seu bem estar social hoje, se uma origem humilde assina o risco. A doença causada pelo protozoário parasita Trypanosoma cruzi tem por sobrenome “negligenciada” e assim naturalizou-se. No maior sentido que a palavra pode ter. Não é que a “doença do coração crescido” voltou. Ela nunca foi. Milhares de pessoas ainda vivem em casas de taipa, que o mosquito barbeiro escolhe para abrigo. Quem já deixou, ou nunca morou assim, mas vive em região endêmica, corre mais risco.

O Ceará registra uma morte por semana da doença, média maior que dengue. Enquanto quem bate à porta é o mal, não a saúde, pacientes soropositivos tentam, e muitos conseguem, uma vida normal. Mas uma outra normalidade é perigosa: várias regiões endêmicas no interior do Estado e pouca atenção onde o descaso é parasita e regra. Pelo menos, 25 cidades cearenses seguem descritas em alto risco. Limoeiro do Norte está no topo, mas até esta informação será novidade para muitos de lá a partir de hoje.

A sentença

Quando Chagas foi notícia na casa de Dedé Bessa, veio com dor de uma sentença. Não esperava que o médico fosse pedir um exame para a doença, se tinha ido reclamar de um inchaço no joelho e um certo descompasso no coração, que dá de acelerar sem ter pra quê. Foi correr na esteira do consultório e não conseguiu. Até onde sabe, e à exceção do joelho direito, é completamente saudável: 39 anos, um metro e oitenta e curvas nos braços de quem há nove anos despacha mercadorias no supermercado em que trabalha.

Seria o cansaço, o estresse? Nunca fumou, nunca bebeu, só conhece álcool pelo cheiro. Pai de Davi (4) – com quem divide o par de olhos verdes – e Henrique (8), é esposo da professora Maria José. Mas tem plano de saúde e vai logo tirar a dúvida que lhe colocaram, porque Dr. Eduardo decidiu investigar.

– O exame do senhor está pronto, diz a atendente do laboratório.

Recolheu o envelope sem intenção de abrir. A falta de coragem dá benefício à dúvida, quando não saber parece jeito de evitar o problema.

– Vamos abrir, diz Mazé.

– Não, deixa pro médico.

Adiou para a volta do trabalho, fim de tarde, após tomar um banho em casa e seguir para o consultório com o papel da preocupação. Irá sozinho: à noite, Mazé dá aula e ele cuida das crianças. Num dos fins de tarde mais longos da vida, vai se lembrando dos que morreram “do coração” e dos vivos com Chagas, como o amigo Zé Vital, que há dois anos descobriu ter a tal doença que pode fazer o coração crescer. “Ele parece bem”.

Das mãos do médico, já na sala fria, a notícia que no papel resume em letras garrafais o resultado, sem mais esperas: REAGENTE. Não houve mais silêncio.

-EU VOU MORRER DO CORAÇÃO, DOUTOR?

A essa altura, tranquilizar é esclarecer: “calma, a gente não sabe direito como tá a doença. Ela não mata de uma vez. Você ainda vai durar muitos anos, se souber fazer direito. E tudo que eu pedir você não falte. Se eu marcar uma consulta, não falte não. Pra gente levar a sério”.

Medo compartilhado

Doença de chagas barro
Foto: Melquíades Júnior

A contaminação se dá, em geral, pelo mosquito barbeiro (Triatoma brasiliensis), cujas fezes parasitadas penetram a pele e o Trypanosoma cruzi toma carona nos vasos sanguíneos, podendo instalar-se em partes do corpo, como intestino e coração.

Dedé sai desolado para dar a novidade aos colegas de trabalho, mas vai mesmo pra chorar. Chorar muito, pra tentar secar antes de chegar em casa, onde mais precisa ser forte sem usar os músculos. Dez minutos de moto entre Centro e Arraial, segue para agora ser quem dá a notícia. Sabia que Mazé ainda estava na Escola Normal, onde leciona.

A comunidade está movimentada na noite em que acontece uma missa na capela de Nossa Senhora das Graças. Aproveita o silêncio do lar e deita-se numa rede no quintal, que dá para a casa conjugada da irmã Fátima Bessa, tornada mãe quando ele tinha três anos (perderam os pais ainda crianças).

Alguém liga para Mazé, que já fica sabendo do esposo enfurnado numa rede. Mas quem sabe primeiro do resultado é Henrique, o filho de oito anos, intrigado com a cena em casa.

– O pai tá chorando por quê?

– Não, meu filho, é que o pai descobriu que tá com uma doença.

– Tá com febre, dor de cabeça?

– Não, meu filho, pai tá com a doença de Chagas.

– O que é isso?

– É do barbeiro. Como se fosse uma muriçoca, aí picou o pai.

– Vai acontecer o quê? Pai vai morrer que nem vovó?

Fátima, a “Fafá”, tinha falecido dois anos antes de câncer – outra doença que sela destinos em Limoeiro acima da média das outras cidades – índice 38% maior, de acordo com a Universidade Federal do Ceará (UFC).

-Não, pai vai morrer não, que tem tratamento. Se preocupe não. Pai não sabe nem onde tá ainda…

-Vai dar certo?

-Vai, se preocupe não.

Vai dar certo

A dor de saber a doença só não é maior do que a de imaginar a ausência para a família, mas o questionamento do filho também foi o primeiro momento de dizer, em casa, a si próprio: não se preocupe. Vai dar certo…

Mazé chega apressada e, pelo celular sabendo que Dedé não parecia bem, já desconfiada. Foi ser consolo e força. “Meu filho, se preocupe não. Doença de Chagas é assim, mas você vai se cuidar. Vai primeiro saber direito”.

Os dias vão se passando com o medo dando lugar à informação. Dedé tenta esquecer a morte para se concentrar na vida e nas palavras do médico: “vai durar muitos anos, se souber fazer direito”.

O paciente precisa ser avaliado em Fortaleza. Existe protocolo para acompanhamento no Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen), da Secretaria da Saúde do Estado, mas o caminho foi outro também possível: encaminhamento ao Hospital Universitário Walter Cantídio, o Hospital das Clínicas, fazer a investigação para identificar onde se instalou o parasita. Em seguida, encaminhamento para o Serviço de Atenção Farmacêutica, da Universidade Federal do Ceará (UFC). Lá está a professora doutora Fátima Oliveira, há quase duas décadas liderando um grupo de trabalho para atender os portadores, acompanhando aplicação do benzonidazol, comprimido de química agressiva que pode gerar 31 diferentes efeitos colaterais, de dores de cabeça, diarreia, perda da sensibilidade nos dedos e até do paladar, podendo ser irreversível.

Trabalhando com uma equipe pequena e poucos recursos, Fátima Oliveira tenta inverter o sentido da negligência a que a doença é historicamente relegada em todas as esferas. O Núcleo de Controle de Vetores do Ceará (Nuvet), da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), tem um setor para Chagas – o de fazer vigilância, mobilização, conscientização e monitoramento.

O recurso financeiro compete com as arboviroses e esse é mais um significado na palavra negligência. Enquanto, em 2016, o Estado gastou R$ 77,3 milhões no combate ao Aedes aegypti (causador de dengue, zika e chikungunya), não houve (ainda não há) orçamento específico para combater diretamente o Triatoma brasilienses. O dado faz parte do estudo “Aedes aegypti e sociedade – o impacto econômico das arboviroses no Brasil”, executado pela Sense Company, em São Paulo, a partir de dados governamentais.

Negligência

Um custo mal resolvido é o de material para sorologias. “Se fala muito de recurso da saúde não ser suficiente, mas muitas vezes não se gasta como deveria. O Ministério da Saúde não está cumprindo com a obrigação. Tudo que está sendo feito no Lacen é com recurso próprio”, desabafa Cláudia Mendonça, assessora técnica do Nuvet.

O controle indireto para o mal de Chagas se dá na substituição de casas de taipa, que abordaremos nesta série. Enquanto isso, no Laboratório de Pesquisa em Doença de Chagas, da UFC, as pesquisadoras chegam a tirar do próprio bolso o dinheiro para compra de kits para os exames. “Apesar de não termos muitas mudanças no tratamento específico da doença, a medicina avançou muito nas doenças correlacionadas. Hoje, um paciente cardíaco tem uma expectativa de vida muito alta”, explica o cardiologista Eduardo Arrais Rocha, que recebe no Hospital das Clínicas os novos pacientes diagnosticados no Ceará.

Tratamento

Decidido a se cuidar, o paciente Dedé tomou os 280 comprimidos receitados. Três por dia. Além da atenção farmacêutica, tinha a vigilância da esposa e dos colegas de trabalho. “Vou tomar como se tivesse tomando uma AAS”, conformou-se. “Aí deu certo”.

Dos 31 sintomas, só teve dor de cabeça, mas sabia que não poderia tomar outro medicamento. Chegou à conclusão, com o amigo chagásico Zé Vital, que a doença se torna maior para quem não se cuida, ou para no meio a medicação. Ou não sabe que abriga o parasita. A outra conclusão é que é novo e vai viver muitos anos. Desde que siga à risca os acompanhamentos (além de bons hábitos alimentares), o filho não precisará se preocupar. E desde então, um ano após oito de setembro de 2017, tem dado certo.

A realidade além da casa de Dedé, pelo contrário, está fora de controle. Sem ter como competir em atenção com as arboviroses, a doença social mais comum do Norte/Nordeste tem orçamento minguado. Muitos médicos desconhecem a enfermidade e, na maioria dos casos, sem fazer uma investigação correta, tratam arritmia cardíaca como um problema isolado, ainda que associado à hipertensão arterial. Muitos portadores sabem da doença até 30, 40 anos depois de infectados. São da época em que viviam em casas de taipa e perto de currais (boi, gato, cachorro e galinha também são hospedeiros).

Eduardo Arrais, o médico, pode aconselhar Dedé, mas queria também os gestores: “Não é admissível que um prefeito, um agente de saúde, veja uma situação como essa e não denuncie. O ciclo perpetua na região. Óbvio que diminuiu muito, mas não era pra existir de forma nenhuma, como acontece em Limoeiro e Quixeré”.

Quem tem sorte, vive. Quem não, morre, nesses tempos modernos, dessa “doença de pobre” e incurável.

Por Diário do Nordeste

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